Retomada do petróleo atrai estrangeiras

  O
setor de petróleo e gás no Brasil vem ganhando novos personagens. Companhias de
países como Estados Unidos, Holanda, Suíça, Dinamarca, França e China estão se
instalando no país e, principalmente, se associando a empresas nacionais de
olho na retomada da atividade da indústria petrolífera. Esse movimento começou
a ganhar força no ano passado e promete crescer nos próximos anos, de acordo
com especialistas. Até a Petrobras já percebeu essa tendência. De acordo com a
estatal, pelo menos 37 novas companhias do exterior já se habilitaram como
fornecedores, das quais 11 ainda estão em processo de qualificação.


  O interesse é pela área de serviços, responsável pela construção e montagem de
equipamentos. O apetite visa a ocupar o espaço que antes era ocupado por nomes
como Odebrecht, Queiroz Galvão, OAS e Engevix – algumas das 18 empresas que
estão proibidas, por bloqueio cautelar, de firmar novos contratos com a
Petrobras, por envolvimento em irregularidades reveladas pela Lava-Jato. Dados
da consultoria EY apontam que 65% das 51 operações de fusões e aquisições no
setor de óleo e gás no país nos últimos três anos envolveram estrangeiras.

  Com as grandes companhias fora do jogo, a própria Petrobras começou a correr
atrás de novos fornecedores. O resultado foi um aumento de 15% na base de
empresas cadastradas no fim de 2017, para um total de 7.300. Desse total, 900
são estrangeiras. De acordo com os dados da estatal, houve avanço também no
número de pequenas empresas cadastradas, que subiu de 1.300 para 1.500 entre 2016
e 2017.

  Segundo Eberaldo de Almeida Neto, gerente-executivo de Suprimento de Bens e
Serviços da Petrobras, a companhia passou a buscar uma maior interação com o
mercado, o que, pelos seus cálculos, aumentou a competitividade em 10% ao ano,
reduzindo os custos.

  – Com o bloqueio cautelar, abriu-se espaço para novas oportunidades. Parte do
pessoal que estava desempregado começou a se ocupar. Essas firmas estrangeiras,
que entram no ramo de serviço, trazem conhecimento e capital para investir,
além de montarem uma estrutura no Brasil. É muito comum essas empresas se
associarem, ou adquirirem uma companhia nacional, e montarem um canteiro aqui,
contratando brasileiros para fazerem os serviços de construção e montagem –
exemplificou Eberaldo.

HOLANDESES INVESTEM EM CAXIAS

  Um desses casos envolve a brasileira Safecon, que faz montagem e fornecimento
de andaimes, além de desenvolver projetos na área de engenharia. Com unidade em
Duque de Caxias e cerca de 70 colaboradores, a empresa acabou de selar uma
joint venture com a holandesa Scafom-rux, uma das maiores fabricantes de
andaimes do mundo. Segundo Manoel Assumpção Junior, diretor comercial, a união
entre as duas companhias vai aumentar a competitividade no mercado:

  -A joint venture com a Scafom vai elevar nosso patamar de competição no
mercado. O plano inicial é dobrar a capacidade de atendimento em até dois anos.
Para a Scafom, também é um passo estratégico importantíssimo, pois, embora
tenha atuação global, não atuava ativamente no Brasil. Nossa expectativa é de
intensificação da demanda ao longo do ano com a retomada da Petrobras.

  Segundo Claudio Makarovsky, presidente da Abespetro, que reúne as empresas
prestadoras de serviço, a recuperação do setor no Brasil, com o aumento do
preço do petróleo para a faixa dos US$ 70 por barril, está atraindo essas
companhias do exterior.

  – Como o Brasil tem muitas regras e é um país burocrático, essas estrangeiras
estão se associando para ter acesso mais rápido à Petrobras, pois o cadastro é
um processo complexo. Isso ajuda também a obter financiamento mais rapidamente
aqui – comentou Makarovsky.

  A maior demanda dos estrangeiros também é sentida no Parque Industrial
Bellavista, em Macaé. Segundo Leonardo Dias, diretor do espaço, há hoje
negociação com cinco companhias do exterior, sendo três europeias, uma asiática
e uma americana.

  – O ano de 2018 começou de forma positiva. Temos recebido sondagens de algumas
empresas, inclusive que ainda não têm atuação no setor de petróleo no Brasil –
afirmou Dias, destacando que hoje há nove companhias estrangeiras já instaladas
e outras três em fase de implantação.

RECUPERAÇÃO DE PREÇOS

  Segundo Viktor Andrade, sócio de fusões e aquisições do Centro de Energia e
Recursos Naturais da EY, com a redução das encomendas da Petrobras após a
Lava-Jato, algumas empresas brasileiras entraram em colapso financeiro. Agora,
há uma reorganização da cadeia. Dados da Petrobras endossam a avaliação de
Andrade. Segundo a estatal, foram 1.100 estrangeiras contratadas em 2014,
número que caiu para 500 em 2016 e se manteve no mesmo patamar no ano passado:

  – Dentro da reorganização do setor de fornecedores, as empresas de serviço no
Brasil precisam do capital do exterior para se reerguer.

  Para Rodrigo Mattos, diretor-executivo da Alvarez & Marsal, o Brasil está
vivendo um movimento positivo no setor de petróleo e gás. Segundo ele, o
potencial de reservas no pré-sal, as regras mais atrativas à exploração, com as
novas normas de conteúdo local, e a melhora dos preços internacionais do
petróleo têm feito as petroleiras do exterior aumentarem seus investimentos no
país. Com isso, disse ele, elas acabam trazendo também seus fornecedores:

  – Temos percebido um movimento forte de associações e aquisições de empresas
locais por estrangeiros para acelerar seu processo de instalação e contratação
de mão de obra. Muitas dessas companhias brasileiras estão atravessando ou
atravessaram processos de reestruturação por causa da crise gerada com a
redução dos investimentos da Petrobras.

Fonte: O Globo, por Bruno Rosa e Ramona Ordoñez


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